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quinta-feira, 15 de março de 2012

Adiado julgamento de 35 lideranças Xukuru acusados de crime contra o patrimônio


Os desembargadores do Tribunal Regional Federal (TRF) da 5ª Região, no Recife julgam na próxima quinta-feira o recurso de apelação de 35 lideranças do povo Xukuru do Ororubá, condenadas pela Justiça Federal de Pernambuco a penas que variam entre 10 e 13 anos.

 O julgamento, que deveria ser realizado hoje, foi adiado para a próxima semana. Os indígenas são acusados de praticar, em fevereiro de 2003, crimes contra o patrimônio de fazendeiros e demais ocupantes da terra indígena Xukuru, localizada na Serra do Ororubá, município de Pesqueira, Vale do Ipojuca, no Agreste pernambucano.
Depois de atentado sofrido pelo cacique Marcos Xukuru, que culminou no assassinato de dois indígenas que o escoltavam, a comunidade se rebelou e decidiu retirar os invasores da terra indígena, já homologada pela Presidência da República desde 2001.
Para a subprocuradora geral da República, Raquel Dodge, as investigações do caso deixaram de considerar vários depoimentos, principalmente os fatos que vitimaram o cacique Marcos, estopim para os eventos seguintes. Entre esses depoimentos estão o do então ministro da Secretaria Especial de Direitos Humanos Nilmário Miranda e do presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai) na época, Eduardo Almeida, que estiveram no local logo no início do conflito.
Na ocasião, as autoridades visitaram o cacique machucado e sedado, a Vila de Cimbres, palco do conflito, e o delegado de Pesqueira, que iria começar as primeiras oitivas, o que não teria acontecido.
Os depoimentos das testemunhas oculares, então, foram colhidos pela subprocuradora e pelo presidente da Funai e em seguida, uma comissão foi designada pela Secretaria Especial de Direitos Humanos. No entanto, o material não foi considerado pela Justiça Federal. Agora, Raquel pede mais uma vez que os desembargadores examinem se as provas entregadas foram completas e revelam o s detalhes do episódio.
Os povos indígenas encaminharam um abaixo-assinado para os desembargadores do TRF-5 pedindo a inocência de seus parentes. Para as organizações indigenistas, trata-se de mais um processo de criminalização contra lideranças que lutam com as comunidades pelo território tradicional.


Fonte: http://www.xingu-otomo.net.br/adiado-julgamento-de-35-liderancas-xukuru-acusados-de-crime-contra-o-patrimonio/

CARTA ABERTA À PRESIDENTA DILMA E À SOCIEDADE BRASILEIR SOBRE INDICAÇÃO PARA A PRESIDÊNCIA DA FUNAI

Brasília, 09 de março de 2012.

À Excelentíssima
Senhora Dilma Russeff
Presidenta da República Federativa do Brasil
Palácio do Planalto
Praça dos Três Poderes – 3º Andar
70150-900 – Brasília/DF
Prezada Senhora:

Nós, Povos e Organizações Indígenas que compõem a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – APIB, abaixo assinados, participantes do Seminário  “Convenção 169 da OIT: experiências e perspectivas”, realizado na Escola de Administração Fazendária – ESAF, em Brasília-DF, nos dias 08 e 09 do presente, vimos por meio desta manifestar a nossa insatisfação com o processo de condução da política indigenista do País, especificamente a indicação de nomes para a presidência da FUNAI, órgão governamental que atua diretamente na convivência diária com os povos indígenas.

Nossa Indignação se dá, pelo fato de que, ao mesmo tempo em que estávamos reunidos para discutir a participação dos Povos Indígenas e suas Organizações no processo de regulamentação dos Mecanismos da Consulta Prévia, Livre e Informada, prevista na Convenção 169 d OIT, tivemos informações não oficiais de que já há uma pessoa indicada para ocupar o cargo de presidente da Funai, e que seria nomeada em breve. Trata-se da Senhora Marta Azevedo, ex esposa do Secretário Nacional de Articulação Social da Presidência da República, Sr. Paulo Maldos e consultora do Instituto Sócio-ambiental – ISA. Essa indicação explicita uma flagrante violação ao artigo 6º da Convenção 169 da OIT, que diz:

“Artigo 6 - 1. Ao aplicar as disposições da presente Convenção, os governos deverão:

a) consultar os povos interessados, mediante procedimentos apropriados e, particularmente, através de suas instituições representativas, cada vez que sejam previstas medidas legislativas ou administrativas suscetíveis de afetá-los diretamente”.

A mudança na Presidência da FUNAI, é um ato administrativo que afeta diretamente os Povos Indígenas do Brasil. No momento em que se discute a implementação da convenção 169 no Brasil, cremos que é uma excelente oportunidade de exercitar o que temos feito através dos discursos. Neste sentido, os Povos Indígenas vêm convidar o Governo Brasileiro para um diálogo visando encontrar pontos convergentes na indicação, em condições de transparência, confiança, equidade e boa fé. Ao fazer essa indicação para o cargo de relevante importância para os Povos Indígenas, no momento em que inicia um processo de diálogo como os povos indígenas, o governo perde a oportunidade de demonstrar na prática, que seu discurso é coerente com sua atuação.

Cabe-nos relembrar parte do legado que Márcio Meira, amigo pessoal da indicada à presidência da FUNAI,  deixa para os Povos Indígenas, como resultado dos 05 (cinco) anos que esteve à frente do órgão indigenista. O indigenismo no Brasil raramente registrou tamanho  desmando e cooptação de lideranças indígenas, intrusão de pessoas ligadas à Ongs nos cargos de confiança e coordenações no órgão indigenista, sem citar a total desestruturação do órgão através do Decreto 7.056/2009, que deixou a FUNAI totalmente desmontada, sem nenhuma condição de planejar e executar a política indigenista no País junto as comunidades indígenas.

Esta prática de Márcio Meira e do governo nos demonstra a constante violação do direito à Consulta Prévia e dos direitos dos nossos Povos à sua autonomia, na medida em que exerce a tutela velada sobre todas as ações do Estado e das políticas ofertadas às comunidades indígenas do nosso País. Como exemplo claro temos as ações do PAC em nossos territórios, onde não se fez nenhuma consulta, salvo algumas reuniões informativas, aos Povos Indígenas afetados pelo mega empreendimento, que coloca em risco suas vidas e o meio ambiente e a vida das gerações futuras.

A atual gestão de Márcio Meira a frente da FUNAI é marcada pela terceirização da FUNAI, entregue a entidades não governamentais que se denominam socioambientais, que dominaram a instituição e fizeram deste espaço público a sua fonte de renda através de generosas consultorias resultantes dos empreendimentos implantados em nossos territórios. 

Não queremos e não vamos permitir este continuísmo de uma política indigenista, que subestima a nossa sabedoria e a capacidade de ler o quadro que se desenha para o futuro de nossos Povos e territórios, assim como não concordamos com a prática obscura do governo federal que não avalia as consequências de um ato como estes, que afetará ainda mais negativamente as práticas do órgão indigenista junto aos nossos mais de 240 Povos indígenas, mais de 600 territórios e aproximadamente 50 Povos não contatados, terceirizados para ONGs através de duvidosos convênios e termos de cooperação, que repassam milhões de reais do dinheiro público para supostamente proteger estes povos.

O governo federal deve e precisa reconhecer e ter nos povos e organizações indígenas aliados para a plena e efetiva promoção e garantia dos direitos indígenas do nosso País. Seremos implacáveis na constante luta pelo nosso direito a autonomia e a livre-determinação conforme assegurado na Constituição Federal e nos instrumentos internacionais de direitos humanos.

Atenciosamente.

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil - APIB
C.c.
Ministro da Justiça - José Eduardo Cardoso
Ministro da Secretaria Geral da Presidência da República – Gilberto Carvalho
Ministério Publico Federal, 6ª Câmara – Dra. Deborah Duprat
Presidência da FUNAI – Márcio Meira

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

GENOCÍDIO, MASSACRE, HOLOCAUSTO... NÃO IMPORTA O NOME: ESTÃO MATANDO NOSSOS INDÍGENAS!!!

Comunidade Kaiowá Guarani sofre massacre na manhã desta sexta-feira (18)

Inserido por: Administrador em 18/11/2011.
Fonte da notícia: Cimi - Assessoria de Imprensa
Renato Santana
De Brasília

No início da manhã desta sexta-feira (18), por volta das 6h30, a comunidade Kaiowá Guarani do acampamento Tekoha Guaviry, município de Amambaí, Mato Grosso do Sul, sofreu ataque de 42 pistoleiros fortemente armados.

O massacre teve como alvo o cacique Nísio Gomes, 59 anos, (centro da foto) executado com tiros de calibre 12. Depois de morto, o corpo do indígena foi levado pelos pistoleiros – prática vista em outros massacres cometidos contra os Kaiowá Guarani no MS.  

As informações são preliminares e transmitidas por integrantes da comunidade – em estado de choque. Devido ao nervosismo, não se sabe se além de Nísio outros indígenas foram mortos. Os relatos dão conta de que os pistoleiros sequestraram mais dois jovens e uma criança; por outro lado, apontam também para o assassinato de uma mulher e uma criança.  

“Estavam todos de máscaras, com jaquetas escuras. Chegaram ao acampamento e pediram para todos irem para o chão. Portavam armas calibre 12”, disse um indígena da comunidade que presenciou o ataque e terá sua identidade preservada por motivos de segurança.

Conforme relato do indígena, o cacique foi executado com tiros na cabeça, no peito, nos braços e nas pernas. “Chegaram para matar nosso cacique”, afirmou. O filho de Nísio tentou impedir o assassinato do pai, segundo o indígena, e se atirou sobre um dos pistoleiros. Bateram no rapaz, mas ele não desistiu. Só o pararam com um tiro de borracha no peito.

Na frente do filho, executaram o pai. Cerca de dez indígenas permaneceram no acampamento. O restante fugiu para o mato e só se sabe de um rapaz ferido pelos tiros de borracha – disparados contra quem resistiu e contra quem estava atirado ao chão por ordem dos pistoleiros. Este não é o primeiro ataque sofrido pela comunidade, composta por cerca de 60 Kaiowá Guarani.  

Decisão é de permanecer

Desde o dia 1º deste mês os indígenas ocupam um pedaço de terra entre as fazendas Chimarrão, Querência Nativa e Ouro Verde – instaladas em Território Indígena de ocupação tradicional dos Kaiowá.

A ação dos pistoleiros foi respaldada por cerca de uma dezena de caminhonetes – marcas Hilux e S-10 nas cores preta, vermelha e verde. Na caçamba de uma delas o corpo do cacique Nísio foi levado, bem como os outros sequestrados, estejam mortos ou vivos.

“O povo continua no acampamento, nós vamos morrer tudo aqui mesmo. Não vamos sair do nosso tekoha”, afirmou o indígena. Ele disse ainda que a comunidade deseja enterrar o cacique na terra pela qual a liderança lutou a vida inteira. “Ele está morto. Não é possível que tenha sobrevivido com tiros na cabeça e por todo o corpo”, lamentou.

A comunidade vivia na beira de uma Rodovia Estadual antes da ocupação do pedaço de terra no tekoha Kaiowá. O acampamento atacado fica na estrada entre os municípios de Amambaí e Ponta Porã, perto da fronteira entre Brasil e Paraguai.  

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Carta do Cacique Mutua a todos os povos da Terra

O Sol me acordou dançando no meu rosto. Pela manhã, atravessou a palha da oca e brincou com meus olhos sonolentos. O irmão Vento, mensageiro do Grande Espírito, soprou meu nome, fazendo tremer as folhas das plantas lá fora.

Eu sou Mutua, cacique da aldeia dos Xavantes. Na nossa língua, Xingu quer dizer água boa, água limpa. É o nome do nosso rio sagrado.

Como guiso da serpente, o Vento anunciou perigo. Meu coração pesou como jaca madura, a garganta pediu saliva. Eu ouvi. O Grande Espírito da floresta estava bravo.

Xingu banha toda a floresta com a água da vida. Ele traz alegria e sorriso no rosto dos curumins da aldeia. Xingu traz alimento para nossa tribo.

Mas hoje nosso povo está triste. Xingu recebeu sentença de morte. Os caciques dos homens brancos vão matar nosso rio.

O lamento do Vento diz que logo vem uma tal de usina para nossa terra. O nome dela é Belo Monte. No vilarejo de Altamira, vão construir a barragem. Vão tirar um monte de terra, mais do que fizeram lá longe, no canal do Panamá.

Enquanto inundam a floresta de um lado, prendem a água de outro. Xingu vai correr mais devagar. A floresta vai secar em volta. Os animais vão morrer. Vai diminuir a desova dos peixes. E se sobrar vida, ficará triste como o índio.

Como uma grande serpente prateada, Xingu desliza pelo Pará e Mato Grosso, refrescando toda a floresta. Xingu vai longe desembocar no Rio Amazonas e alimentar outros povos distantes.

Se o rio morre, a gente também morre, os animais, a floresta, a roça, o peixe tudo morre. Aprendi isso com meu pai, o grande cacique Aritana, que me ensinou como fincar o peixe na água, usando a flecha, para servir nosso alimento.

Se Xingu morre, o curumim do futuro dormirá para sempre no passado, levando o canto da sabedoria do nosso povo para o fundo das águas de sangue.

Hoje pela manhã, o Vento me levou para a floresta. O Espírito do Vento é apressado, tem de correr mundo, soprar o saber da alma da Natureza nos ouvidos dos outros pajés. Mas o homem branco está surdo e há muito tempo não ouve mais o Vento.

Eu falei com a Floresta, com o Vento, com o Céu e com o Xingu. Entendo a língua da arara, da onça, do macaco, do tamanduá, da anta e do tatu. O Sol, a Lua e a Terra são sagrados para nós.

Quando um índio nasce, ele se torna parte da Mãe Natureza. Nossos antepassados, muitos que partiram pela mão do homem branco, são sagrados para o meu povo.

É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo. E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do Xingu, não sei por quanto tempo.

Na roça, ainda conseguimos plantar a mandioca, que é nosso principal alimento, junto com o peixe. Com ela, a gente faz o beiju. Conta a história que Mandioca nasceu do corpo branco de uma linda indiazinha, enterrada numa oca, por causa das lágrimas de saudades dos seus pais caídas na terra que a guardava.

O Sol me acordou dançando no meu rosto. E o Vento trouxe o clamor do rio que está bravo. Sou corajoso guerreiro, não temo nada.

Caminharei sobre jacarés, enfrentarei o abraço de morte da jiboia e as garras terríveis da suçuarana. Por cima de todas as coisas pularei, se quiserem me segurar. Os espíritos têm sentimentos e não gostam de muito esperar.

Eu aprendi desde pequeno a falar com o Grande Espírito da floresta. Foi num dia de chuva, quando corria sozinho dentro da mata, e senti cócegas nos pés quando pisei as sementes de castanha do chão. O meu arco e flecha seguiam a caça, enquanto eu mesmo era caçado pelas sombras dos seres mágicos da floresta.

O espírito do Gavião Real agora aparece rodopiando com suas grandes asas no céu.

Com um grito agudo perguntou:

Quem foi o primeiro a ferir o corpo de Xingu?

Meu coração apertado como a polpa do pequi não tem coragem de dizer que foi o representante do reino dos homens.

O espírito do Gavião Real diz que se a artéria do Xingu for rompida por causa da barragem, a ira do rio se espalhará por toda a terra como sangue e seu cheiro será o da morte.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. O dia se abriu e me perguntou da vida do rio. Se matarem o Xingu, todos veremos o alimento virar areia.
O Sol me acordou dançando no meu rosto. Pela manhã, atravessou a palha da oca e brincou com meus olhos sonolentos. O irmão Vento, mensageiro do Grande Espírito, soprou meu nome, fazendo tremer as folhas das plantas lá fora.

Eu sou Mutua, cacique da aldeia dos Xavantes. Na nossa língua, Xingu quer dizer água boa, água limpa. É o nome do nosso rio sagrado.

Como guiso da serpente, o Vento anunciou perigo. Meu coração pesou como jaca madura, a garganta pediu saliva. Eu ouvi. O Grande Espírito da floresta estava bravo.

Xingu banha toda a floresta com a água da vida. Ele traz alegria e sorriso no rosto dos curumins da aldeia. Xingu traz alimento para nossa tribo.

Mas hoje nosso povo está triste. Xingu recebeu sentença de morte. Os caciques dos homens brancos vão matar nosso rio.

O lamento do Vento diz que logo vem uma tal de usina para nossa terra. O nome dela é Belo Monte. No vilarejo de Altamira, vão construir a barragem. Vão tirar um monte de terra, mais do que fizeram lá longe, no canal do Panamá.

Enquanto inundam a floresta de um lado, prendem a água de outro. Xingu vai correr mais devagar. A floresta vai secar em volta. Os animais vão morrer. Vai diminuir a desova dos peixes. E se sobrar vida, ficará triste como o índio.

Como uma grande serpente prateada, Xingu desliza pelo Pará e Mato Grosso, refrescando toda a floresta. Xingu vai longe desembocar no Rio Amazonas e alimentar outros povos distantes.

Se o rio morre, a gente também morre, os animais, a floresta, a roça, o peixe tudo morre. Aprendi isso com meu pai, o grande cacique Aritana, que me ensinou como fincar o peixe na água, usando a flecha, para servir nosso alimento.

Se Xingu morre, o curumim do futuro dormirá para sempre no passado, levando o canto da sabedoria do nosso povo para o fundo das águas de sangue.

Hoje pela manhã, o Vento me levou para a floresta. O Espírito do Vento é apressado, tem de correr mundo, soprar o saber da alma da Natureza nos ouvidos dos outros pajés. Mas o homem branco está surdo e há muito tempo não ouve mais o Vento.

Eu falei com a Floresta, com o Vento, com o Céu e com o Xingu. Entendo a língua da arara, da onça, do macaco, do tamanduá, da anta e do tatu. O Sol, a Lua e a Terra são sagrados para nós.

Quando um índio nasce, ele se torna parte da Mãe Natureza. Nossos antepassados, muitos que partiram pela mão do homem branco, são sagrados para o meu povo.

É verdade que, depois que homem branco chegou, o homem vermelho nunca mais foi o mesmo. Ele trouxe o espírito da doença, a gripe que matou nosso povo. E o espírito da ganância que roubou nossas árvores e matou nossos bichos. No passado, já fomos milhões. Hoje, somos somente cinco mil índios à beira do Xingu, não sei por quanto tempo.

Na roça, ainda conseguimos plantar a mandioca, que é nosso principal alimento, junto com o peixe. Com ela, a gente faz o beiju. Conta a história que Mandioca nasceu do corpo branco de uma linda indiazinha, enterrada numa oca, por causa das lágrimas de saudades dos seus pais caídas na terra que a guardava.

O Sol me acordou dançando no meu rosto. E o Vento trouxe o clamor do rio que está bravo. Sou corajoso guerreiro, não temo nada.

Caminharei sobre jacarés, enfrentarei o abraço de morte da jiboia e as garras terríveis da suçuarana. Por cima de todas as coisas pularei, se quiserem me segurar. Os espíritos têm sentimentos e não gostam de muito esperar.

Eu aprendi desde pequeno a falar com o Grande Espírito da floresta. Foi num dia de chuva, quando corria sozinho dentro da mata, e senti cócegas nos pés quando pisei as sementes de castanha do chão. O meu arco e flecha seguiam a caça, enquanto eu mesmo era caçado pelas sombras dos seres mágicos da floresta.

O espírito do Gavião Real agora aparece rodopiando com suas grandes asas no céu.

Com um grito agudo perguntou:

Quem foi o primeiro a ferir o corpo de Xingu?

Meu coração apertado como a polpa do pequi não tem coragem de dizer que foi o representante do reino dos homens.

O espírito do Gavião Real diz que se a artéria do Xingu for rompida por causa da barragem, a ira do rio se espalhará por toda a terra como sangue e seu cheiro será o da morte.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. O dia se abriu e me perguntou da vida do rio. Se matarem o Xingu, todos veremos o alimento virar areia.

A ave de cabeça majestosa me atraiu para a reunião dos espíritos sagrados na floresta. Pisando as folhas velhas do chão com cuidado, pois a terra está grávida, segui a trilha do rio Xingu. Lembrei que, antes, a gente ia para a cidade e no caminho eu só via árvores.

Agora, o madeireiro e o fazendeiro espremeram o índio perto do rio com o cultivo de pastos para boi e plantações mergulhadas no veneno. A terra está estragada. Depois de matar a nossa floresta, nossos animais, sujar nossos rios e derrubar nossas árvores, querem matar Xingu.

O Sol me acordou brincando no meu rosto. E no caminho do rio passei pela Grande Árvore e uma seiva vermelha deslizava pelo seu nódulo.

Quem arrancou a pele da nossa mãe? gemeu a velha senhora num sentimento profundo de dor.

As palavras faltaram na minha boca. Não tinha como explicar o mal que trarão à terra.

Leve a nossa voz para os quatro cantos do mundo clamou O Vento ligeiro soprará até as conchas dos ouvidos amigos ventilou por último, usando a língua antiga, enquanto as folhas no alto se debatiam.

Nosso povo tentou gritar contra os negócios dos homens. Levamos nossa gente para falar com cacique dos brancos. Nossos caciques do Xingu viajaram preocupados e revoltados para Brasília. Eu estava lá, e vi tudo acontecer.

Os caciques caraíbas se escondem. Não querem olhar direto nos nossos olhos. Eles dizem que nos consultaram, mas ninguém foi ouvido.

O homem branco devia saber que nada cresce se não prestar reverência à vida e à natureza. Tudo que acontecer aqui vai voar com o Vento que não tem fronteiras. Recairá um dia em calor e sofrimento para outros povos distantes do mundo.

O tempo da verdade chegou e existe missão em cada estrela que brilha nas ondas do Rio Xingu. Pronta para desvendar seus mistérios, tanto no mundo dos homens como na natureza.

Eu sou o cacique Mutua e esta é minha palavra! Esta é minha dança! E este é o meu canto!

Porta-voz da nossa tradição, vamos nos fortalecer. Casa de Rezas, vamos nos fortalecer. Bicho-Espírito, vamos nos fortalecer. Maracá, vamos nos fortalecer. Vento, vamos nos fortalecer. Terra, vamos nos fortalecer.

Rio Xingu! Vamos nos fortalecer!
Leve minha mensagem nas suas ondas para todo o mundo: a terra é fonte de toda vida, mas precisa de todos nós para dar vida e fazer tudo crescer.

Quando você avistar um reflexo mais brilhante nas águas de um rio, lago ou mar, é a mensagem de lamento do Xingu clamando por viver.


Cacique Mutua


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domingo, 3 de abril de 2011

SERES HUMANOS AMEAÇADOS DE EXTINÇÃO EM PLENO SÉCULO XXI


AVÁ-CANOEIRO

 
    Onde estão: Goiás, Minas Gerais, Tocantins

    Quantos são: 16 (Funasa, 2006)

    Língua: Tupi-Guarani
Somente a partir da década de 1970 parte dos Avá-Canoeiro passaram a ter contato permanente com a sociedade envolvente. Alguns grupos, porém, continuam isolados. O quadro atual desse povo é bastante crítico, devido ao pequeno número de pessoas e à precariedade das condições de vida a que estão sujeitas. Sua capacidade de adaptação tem sido sua maior arma na sobrevivência, já que, desde o início do século XIX, a ocupação de seu território tradicional por fazendas, garimpos, vilas e cidades obrigaram os Avá-Canoeiro a deslocamentos contínuos por diversos ecossistemas e contextos.

Modo de vida e uso dos recursos naturais

Diferente do que se poderia supor, o regime de intenso nomadismo é uma contingência histórica que atingiu os grupos Avá-Canoeiro em épocas diversas e com resultados também diferentes. Nada indica que seja um grupo com uma cultura plenamente adaptada a esse regime. Ao contrário, tudo leva a crer que se trate de um grupo com formas de subsistência - como agricultura combinada com caça, coleta e abates de caça - que indicam um nomadismo sazonal, muito distante do regime de contínuos deslocamentos a que vem sendo forçados nos últimos cem anos.
Os grupos do alto Tocantins, obrigados a deslocamentos há pelo menos quatro décadas, suspendem a prática de atividades como agricultura e cerâmica, reiniciando-as quando se lhe oferecem condições. Já os descendentes dos grupos que saíram em direção ao Araguaia por volta de 1840-60 não cultivam nenhuma espécie vegetal, vivendo exclusivamente de caça, coleta e da pilhagem das roças e rebanhos regionais. Atividades não compatíveis com a vida nômade foram esquecidas.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

SILVIA NOBRE WAIÃPI: Primeira mulher indígena a ser incorporada ao Exército brasileiro


 DO DIÁRIO DE PERNAMBUCO (06.02.2011)

Em mais uma conquista das mulheres e minorias étnicas, o Exército brasileiro incorporou a primeira tenente índia. Sílvia Nobre Waiãpi, que nasceu no Amapá e é da etnia Waiãpi, concorreu com cinco mil candidatos e foi aprovada com uma das melhores pontuações no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva do Rio de Janeiro (CPOR) onde faz estágio.





Natural do Amapá, da etnia Waiãpi, Silvia é formada em artes e fisioterapia e está fazendo pós-graduação em gênero e sexualidade pelo Instituto de Medicina Social da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
A nova oficial do Exército quer que seu exemplo possa inspirar outros jovens índios espalhados por milhares de aldeias no território nacional, que muitas vezes ficam sem alternativa profissional e acabam caindo no isolamento, no vício das drogas ou até na criminalidade.
“Eu lutei para chegar até aqui, respeitando todos os ensinamentos que aprendi com os meus antepassados. Porque um povo que não preserva a sua identidade e nem guarda a memória dos seus mortos não sabe de onde veio e nem para onde vai”, afirmou Sílvia.
A militar considera fundamental a integração dos índios à sociedade formal, principalmente por meio da continuidade dos estudos. “É importante que todos os indígenas estejam inseridos nesta sociedade", disse.
Sílvia vê um papel decisivo das Forças Armadas na política indigenista do país, pois os militares têm meios e pessoal para chegar a comunidades muito afastadas e de difícil acesso, levando apoio social e exercendo ações na área de saúde.
“O Exército salvaguarda as fronteiras e a soberania do país em locais muitas vezes esquecidos. As Forças Armadas servem de suporte e apoio, com hospitais de campanha e atendimento às populações ribeirinhas.”
Ela vai passar os primeiros seis meses fazendo estágio como aspirante a oficial, quando será promovida a tenente. “Eu escolhi o Exército porque aqui eu posso ser igual a todo mundo. Aqui tem lugar para brancos, para negros, para índios. É uma força que integra toda a sociedade brasileira.”


Do site:
http://exame.abril.com.br/economia/brasil/noticias/primeira-tenente-india-e-incorporada-ao-exercito-brasileiro

domingo, 2 de janeiro de 2011

Lula homologou nos oito anos de governo 81 terras indígenas



BRASÍLIA — O portal do Comitê de Organização de Informações da Presidência de República (https://i3gov.planejamento.gov.br/coi/) contabiliza que o governo Lula homologou, até 2009, 81 terras indígenas (TI) o que equivale a uma área de mais 18,6 milhões de hectares. O número difere das contas do Conselho Indigenista Missionário (Cimi) que calcula que desde 2003 foram homologadas cerca de 14,3 milhões de hectares.

Segundo o Cimi, qualquer uma das medidas deixa o governo Lula abaixo das áreas homologadas pelos governos Collor/Itamar (31,9 milhões de hectares) e os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso (36 milhões de hectares). A homologação, feita por decreto do presidente da República, é a penúltima etapa no processo de demarcação de uma TI, antes do registro em cartório e após os estudos de identificação, contestação, declaração de limites (portaria do Ministério da Justiça) e demarcação física.

Para o vice-presidente do Cimi, Roberto Antonio Liebgott, o “governo Lula quebrou um pouco as expectativas do movimento indígena”. Ele atribui as dificuldades de homologação às pressões de setores econômicos (como o agronegócio) sobre o governo e os recursos na Justiça contra os processos de demarcação. “São dois fatores bem combinados. Quando se supera um, se atravanca no outro Poder”, avalia.

Além da frustração quanto às homologações, o período 2003-2010 foi marcado por extrema violência contra os índios. “Foram centenas de conflitos com uma média de assassinatos de pelo menos 50 indígenas por ano”, calcula Roberto Liebgott. Nas contas do Cimi, o pico de homicídios ocorreu em 2007, quando foram mortos 92 indígenas.

Um dos focos de violência foi o Estado de Mato Grosso do Sul (MS), onde a Fundação Nacional do Índio (Funai) iniciou, em 2008, estudos para demarcar seis terras indígenas nas bacias dos rios Apa, Dourados, Brilhante, Ivinhema, Iguatemi e Amambaí nos primeiros meses de 2011. No estado, cerca de 3 mil índios (Guarani Kaiowá e Guarani Nhandéwa) vivem em 22 acampamentos montados à beira de rodovias.

Para muitos indigenistas a situação no MS é pior até mesmo que na Raposa Serra do Sol (RR), onde os produtores de arroz protelaram por anos com recursos na Justiça até que o Supremo Tribunal Federal confirmasse a homologação feita pelo presidente Lula.

O ativista do Cimi avalia que durante o próximo governo as entidades do movimento indígena deverão “apresentar uma pauta de demandas” e exigir “assistência diferenciada que até hoje não existe”. Ele, no entanto, pondera que os indígenas devem se articular melhor. “Isso não vai acontecer do dia para a noite”, disse antes de lembrar que durante a campanha eleitoral a questão indígena “ficou à margem [dos debates]”.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Foro Internacional dos Povos Indígenas sobre Mudancas Climáticas


 Foto:http://chsurui.blogspot.com/

Nota para imprensa

Povos Indígenas do mundo pleiteiam propostas mínimas sobre Cambio Climático


Cancún, 30 de noviembre, 2010. Delegadas e delegados dos povos indígenas,  representantes de mais de  360 millhoes de pessoas, pedimos para incorporar nos acordos sobre Cambio Climático um conjunto de propostas mínimas de caráter irrenunciavel por estar profundamente ligadas a nossos direitos humanos.

Todos reunidos em Cancun concordamos com o enfoque de direitos expressado pelor presidente do México Felipe Calderón que, durante  sua intervencao no ato  inaugural da COP 16, que O “direito a um ambiente saudavel  e' um direito humano de todas as pessoas, incluindo especialmente os indígenas”.

Nos povos indígenas afirmamos que os textos que se adotem em Cancun devem reconhecer os direitos dos povos indígenas.

Diante disso enfatizamos, o direito a  livre determinacao, das terras, territorios, recursos naturais e genéticos,  consentimiento previo livre e informado, aos conhecimentos tradicionais.

Também exigimos a participacao plena, efetiva e direta dos povos indígenas em todos os mecanismos, organismos, procedimentos establecidos na Convencao Marco das Nacoes Unidas sobre Cambio Climático como mitigacao, adaptacao, Protocolo de Kyoto, financiamento, transferencia de tecnología e fortalecimento de capacidades, e outros.

Nossas propostas se fundamentam nos principios e direitos reconhecidos pela propria Organizacao das Nacoes Unidas (ONU), incluindo a Declaracao das Nacoes Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, adotadas pela Assembleia Geral da ONU em 13 de septiembre de 2007.

Nos povos indígenas, estamos em situaciao de vulnerabilidade pelo impacto do cambio climático tal como  reconhece o Conselho de Direitos Humanos da ONU, devido a nossa estreita relacao com a natureza, e os textos de negociacao devem mencionar este trecho, e incluir referencias específicas aos povos indígenas.

Outra demanda fundamental 'e que os acordos garantam a inclusao, do reconhecimento e a protecao das tecnologías proprias, semillas, expressoes culturais, crencas, patrimonio e conhecimentos ancestrais.

Respeito ao financiamento propomos a participacao plena e  efetiva de nossos povos indígenas na gestao e distribuicao de recursos, assím como o acceso a tecnologías apropriadas e a processos de fortalecimento de capacidades para  enfrentar o  cambio climático.

Contacto de prensa para entrevistas o declaraciones: Español: Genaro Bautista: (+52) 1-5527098873
      Janeth Cuji & Jenny Vaca: (+52) 1- 9982039357


Sônia Guajajara
Vice Coordenadora
Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira - COIAB

"Unir para organizar, fortalecer para conquistar"
Cel.: +55 92 8143-7244

Skype: soniaguajajara34
Site: www.coiab.com.br

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Quem são os Yanomamis?

Visitantes de outras aldeias se preparam para a entrada na maloca onde se realizou a Quarta Assembleia da Hutukara Associação Yanomami, em Toototobi (AM)

Visitantes de outras aldeias se preparam para a entrada na maloca onde se realizou a Quarta Assembleia da Hutukara
Associação Yanomami, em Toototobi (AM)

DO SITE FOLHA.COM


21/11/2010 - 08h00 -Por MARCELO LEITE



Divulgação Edson Sato/Hutukara Associação Yanomami


Os primeiros contatos sistemáticos de brancos com ianomâmis, em território brasileiro, aconteceram nos anos 1940. Antes disso, só se conheciam as informações coletadas por viajantes como o etnógrafo alemão Theodor Koch-Grünberg, que travou contato com os ianomâmis em 1911-1913 e escreveu sobre suas guerras com a etnia dos iecuanas, e os relatos esporádicos de seringueiros, castanheiros e piaçabeiros que topavam acidentalmente com aqueles índios nômades, falantes de uma língua desconhecida e temidos por povos vizinhos como poderosos guerreiros e feiticieiros. Militares da Comissão Brasileira de Demarcação de Limites (CBDL) percorrem várias vezes as montanhas que servem como divisor de águas entre as bacias do Orenoco e do Amazonas, entre 1938 e 1945, com a missão de fixar a fronteira entre Brasil e Venezuela.

Foi o início de uma demanda irreprimível dos índios por objetos de metal, como machados e terçados. E foi também o início de uma fabulação ambígua sobre os ianomâmis, em que se misturam imagens de um povo idilicamente isolado, ainda chamado de "guaharibos", com as de grupos violentos e vingativos. Imbuído do positivismo benevolente que o futuro marechal Rondon imprimiria ao Serviço de Proteção ao Índio, Rubens Nelson Alves relata a expedição de 1942-1943 à região do rio Mucajaí como emissária do mundo civilizado, portadora de paz e amizade para "um grande império silvícola". Dois anos antes no Demini, porém, um acampamento de base da CBDL sofrera um ataque dos ianomâmis, com vários feridos.

Na década seguinte começou um fluxo mais ordenado dos "napë" (brancos) para os platôs e sopés de serras como Imeri, que abriga o pico da Neblina (2.994 m). Atraídos pela condição "intocada" dos ianomâmis, missionários católicos e protestantes passaram a instalar-se no local, acompanhados de linguistas e antropólogos para auxiliar no aprendizado das línguas locais. Atendimento de saúde, alfabetização e catequese formavam o tripé da máquina de boas intenções, que tampouco dispensava facões e espelhinhos.

Mas "napë", para ianomâmis, em geral quer dizer mesmo garimpeiros. É deles a face mais odiosa do contato com a "civilização", um tsunami de mortes por gripe, sarampo, rubéola e malária, além de massacres. Poderia ter extinguido os ianomâmis a partir da década de 1970, quando pereceram em apenas três anos 13% da população da etnia no Brasil, não fosse a capacidade de adaptação de alguns líderes, como Kopenawa e seu sogro, Lourival.

Dois livros recentes recontam essa história. "La Chute du Ciel - Paroles d'un Chaman Yanomami" (A Queda do Céu - Palavras de um Xamã Ianomâmi, editora Plon, 2010; em português, sairá pela Companhia das Letras em 2011) a apresenta do ponto de vista do xamã Davi Kopenawa, cujas palavras foram coletadas pelo antropólogo Bruce Albert ao longo de 35 anos de convívio. Menos envolvido, mas não menos simpático à causa indígena, é "Les Yanomami du Brésil - Géographie d'un Territoire Amérindien" (Os Ianomâmis do Brasil, Geografia de um Território Ameríndio, editora Belin, 2010).

Ambos formam um contraponto atual para a antiga visão que fazia dos ianomâmis um "povo feroz", dedicado a guerras, vinganças e infanticídio, que teve como principal propagador o americano Napoleon Chagnon."Yanomamö - The Fierce People", aliás, era o título da etnografia que esse controverso antropólogo publicou em 1968. Mais à frente, Chagnon foi acusado de envolver-se em pesquisas de vacinas com os índios, sem o devido consentimento.

Antes de Albert, o antropólogo de escola francesa mais próximo de ianomâmis foi Jacques Lizot, que descreveu em 1976, no livro "Le Cercle des Feux" ("O Círculo dos Fogos", editora Martins Fontes, 1988), os costumes da etnia. Mas Lizot foi depois acusado de pedofilia. Exposições mais detalhadas desse capítulo antropológico nada edificante protagonizado por Chagnon e Lizot podem ser encontradas no livro "Trevas no Eldorado", de Patrick Tierney (Ediouro, 2002) e no documentário "Secrets of the Tribe" (Segredos da Tribo), que José Padilha fez para a BBC em 2009.

MASSACRE Como missionários, antropólogos e outros "napë", os garimpeiros atraem os índios com presentes. Depois de obter acesso aos veios de interesse, como depósitos de cassiterita (minério de estanho) e ouro na região de Surucucu, o suprimento começa a minguar e pode terminar cortado.

Irados, os ianomâmis acabam por revidar o que tomam por ofensas. Deflagram uma guerra em que serão fatalmente derrotados. Isso ficou evidente com o famoso massacre de Haximu (1993), que acarretou a morte de 16 indígenas, na maioria mulheres, crianças e velhos, após o assassinato de um garimpeiro. O drama oculto do extermínio ianomâmi, que se desenrolava no recôndito da selva amazônica, ganha repercussão mundial. O relato mais detalhado dos eventos aparece em artigo de Bruce Albert publicado pela Folha em 3 de outubro de 1993.

Como diria Kopenawa, não adiante brigar com "napë". Eles têm armas de fogo, tratores e o próprio fogo como aliados, na hora de derrubar a mata. Na frente de devastação, em Roraima, Amazonas e Venezuela, os brancos podem encontrar-se em minoria, mas há muito mais deles, nas grandes cidades, do que todos os 33 mil ianomâmis juntos, brasileiros e venezuelanos. Como gafanhotos, nunca faltarão garimpeiros.

Mas Haximu foi também um anticlímax para os não índios, que um ano antes do massacre tinham presenciado uma vitória importante dos ianomâmis em Brasília: a homologação dos 96.650 km2 da Terra Indígena Yanomami, assinada pelo presidente Fernando Collor pouco antes da Eco-92, no Rio. Um território maior que Portugal, de propriedade da União e reservado para usufruto exclusivo de cerca de 17 mil ianomâmis (os outros 16 mil vivem do lado venezuelano).

Era o objetivo por que lutara nos 15 anos anteriores a Comissão pela Criação do Parque Yanomami (CCPY), uma ONG fundada entre outros pela fotógrafa Claudia Andujar, que conseguiu o apoio de personalidades como o senador Severo Gomes (PMDB-SP). À sua sombra cresce também a liderança de um jovem ianomâmi, funcionário da Funai batizado e alfabetizado por missionários: David Kopenawa.

PERIMETRAL NORTE Curioso sobre os costumes do brancos, Kopenawa emprega-se como intérprete dos brancos mobilizados para construir um trecho da rodovia Perimetral Norte (BR-210), a partir de 1973, da cidade de Caracaraí até a Missão Catrimani, já em território ianomâmi, e daí até o posto da Funai Demini. Peça-chave do Plano de Integração Nacional do governo militar, a maior parte da estrada acabou abandonada e tomada pela selva. Com pouco mais de 20 anos, o jovem se torna depois chefe do posto Demini, no km 211 da Perimetral.

Bruce Albert conta em seu livro que Lourival, líder de uma comunidade ianomâmi com história problemática de migrações e conflitos com brancos, vê aí a oportunidade de ganhar acesso descomplicado às mercadorias úteis dos "napë", sobretudo utensílios de metal como machados e facões Aproxima seu povo do posto e acaba por fixá-lo na aldeia Watoriki, em 1993. No processo, casa uma filha com Kopenawa e o inicia nas artes do xamanismo. Consegue, com isso, obter o que lhe interessa dos brancos, por um intermediário alfabetizado e versado nos costumes dos brancos, sem ter de brigar com eles. Depois de Kopenawa, a nova geração ianomâmi amplifica o uso da escolarização como meio de fazer a etnologia dos "napë", assimilando seus códigos para defender os próprios interesses de modo mais eficaz.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Democracia xamânica

Em cinco línguas, a algaravia da política ianomâmi


RESUMO

Em sete dias de assembleia e eleições na comunidade de Toototobi, no Estado do Amazonas, Davi Kopenawa foi reeleito líder da associação Hutukara, que representa os interesses dos índios ianomâmis. Debates entre líderes e eleitores e negociações com o Estado brasileiro apontam o domínio dos ianomâmis sobre as artes da costura política.


MARCELO LEITE

Após sete dias de debates e discursos, com tradução nada simultânea nas quatro línguas ianomâmis e em português, aproxima-se o ponto alto da quarta assembleia da associação Hutukara: eleição da nova diretoria. Liderada por Davi Kopenawa Yanomami, 54, e seu filho Dário, 28, a composição atual se candidata à reeleição depois de dois anos de mandato. No centro da maloca, construída para a reunião de várias aldeias na antiga comunidade de Toototobi (no AM, perto da divisa com RR), organiza-se uma fileira de candidatos de oposição para cada posto, cara a cara com os adversários.
São 15h40 de domingo, 7 de novembro, sétimo e último dia da assembleia. Pergunto a Marcos Wesley de Oliveira, do Instituto Socioambiental, há 13 anos educador entre os ianomâmis e meu guia etnológico em Toototobi, se alguém se apresentará para concorrer com Kopenawa. O líder fundou a associação formada só por indígenas em 2004, no vácuo deixado pela extinção do convênio que o Ministério da Saúde mantinha com a organização Urihi, encarregada da assistência médica aos ianomâmis, por sua vez derivada de outra ONG de brancos, a CCPY (Comissão pela Criação do Parque Yanomami, depois Comissão Pró-Yanomami). [Leia mais em folha.com/ilustrissima]
O CARA Kopenawa preside a Hutukara desde sua criação e é obviamente "o cara" em Toototobi, como diriam Lula e Obama. Por isso, o guia Oliveira diz achar que ninguém se arriscaria a enfrentá-lo, mas os ianomâmis o surpreendem mais uma vez.
Gilberto, um desconhecido três décadas mais moço, perfila-se diante do líder que já ganhou o Prêmio Global 500 da ONU e correu mundo em defesa de seu povo. O jovem transpira irreverência e ambição. Seu oponente parece aferroá-lo com os olhos, fazendo justiça ao nome do meio, Kopenawa, que significa "marimbondo". Mas parece mais forte a atra ção exercida sobre Gilberto pela vida glamourosa de Dário e os outros jovens diretores da associação, que vivem em Boa Vista (RR), sede da Hutukara, e compõem a elite de professores de educação em língua indígena cultivada por Kopenawa para receber o bastão e assumir a defesa dos interesses de seu povo diante do Estado.
Democracia é uma arte dos brancos, e Kopenawa aprendeu algumas coisas com eles, "napë pë" (coletivo de "napë", ou não ianomâmi). Não adianta brigar com "napë", ensina. Se brigar, não consegue nada. Em lugar de flechas e bordunas, palavras.
"O presidente [da associação Hutukara] tem de falar forte com os políticos. Vocês não têm medo?" -vocifera Kopenawa. Não é coisa para crianças, explica, mas para "pata", os mais velhos e sábios. Tem de andar pelo Brasil, pela Europa, falar com "napë" como representante do povo ianomâmi. Tem que ser valente, guerreiro.
FASCÍNIO O correligionário Alfredo cobre outros flancos : "Vocês vão ter de ficar longe de suas mulheres. Mexer em computador. Seus velhos vão ficar com muita saudade". Micros, assim como filmadoras e máquinas fotográficas, exercem evidente fascínio sobre os índios, mas são poucos e jovens os que têm acesso a eles, como os dirigentes da associação. São deles também as bermudas mais vistosas (eles recebem uma ajuda de custo de R$ 150 mensais para se manterem na cidade).
Os adversários se encolhem, mas não recuam. Começa a votação, cargo por cargo. A ideia de usar cédulas de papel é abandonada, porque muitos não sabem ler nem escrever.
Opta-se pela formação de filas distintas para os eleitores de cada candidato à vaga de presidente, e assim por diante. Duas, três, quantas filas forem necessárias, saindo da maloca pelo terreiro, mato adentro, homens e mulheres não muito misturados. Pelo estatuto da Hutukara, todo ianomâmi com mais de 18 anos pode votar.
As filas se formam com rapidez. Co nsomem menos tempo para se materializar que a contagem de cada uma por dois "napë". Os índios aguardam a apuração de cada fila, até que se desfaça, com a mesma paciência com que acompanharam os debates por até 12 horas, a cada dia. Mesmo candidatos a presidente se encaminham disciplinados para as fileiras.
É a festa da democracia, estilo ianomâmi. Com a participação dedicada de cerca de 600 índios (as cozinheiras falam em mais de mil, com a responsabilidade de preparar 110 kg de arroz e 20 kg de feijão por dia).
Muitos vieram de perto, a algumas horas ou dias de caminhada, mas convidados de aldeias a centenas de quilômetros, inclusive da Venezuela, chegaram de avião na pista de grama vizinha, a R$ 1.100 a hora de voo.
Uma festa de R$ 232 mil, bancados pela Hutukara com doações de financiadores. O principal é a Regnskogfondet (Fundação Floresta Pluvial), da Noruega, que comparece com R$ 287 mil anuais. Mas o encontro teve apoio extra de sete entidades, entre elas a Fundação Nacional do Índio (Funai), que pagou 50 horas de voo.
EDUCAÇÃO Na pauta da Quarta Assembleia da Hutukara Associação Yanomami, o dia 3 de novembro, uma quarta-feira, está reservado para o tema educação. Na berlinda se acha Alda Regina Amorim Franco, secretária-adjunta de Educação do governo de Roraima, um Estado pouco dado a políticas em favor dos índios (a praça central da capital, Boa Vista, conhecida como "Bola", ostenta a gigantesca estátua de um garimpeiro).
Dário, filho de Kopenawa, ouve as explicações burocráticas da secretária-adjunta sobre as deficientes escolas nas aldeias. Toma então a palavra e, sem que ninguém entenda de imediato, começa a chamar para o centro da maloca representantes das 53 comunidades presentes. Pede que se organizem em duas filas, uma dos que têm escola na aldeia (35 se movem para ela) e outra dos que não têm (18). Por fim, dirige-se só aos 35 privilegiados e pergunt a: Chegou material escolar? Merenda? Carteiras, lousas, armários?
Todas as perguntas recebem um "não" uníssono como resposta. O desconforto das autoridades é visível. Os índios querem respostas, compromissos, prazos, explicações. Em meio aos discursos em línguas ianomâmis, pipocam vocábulos em português: "corrupção", "manipulação". As representantes da secretaria enrolam justificativas, como período eleitoral, ou dificuldade de levar cargas pesadas de móveis e livros, em avião, até as aldeias.
Aproxima-se a hora limite, 16h30, para a decolagem do avião que levaria as autoridades estaduais de volta a Boa Vista. A subsecretária parece aliviada com a partida iminente. Os ianomâmis recebem então a contribuição inesperada do piloto da empresa de táxi aéreo.
A notícia chega primeiro para Davi Kopenawa, que pede o microfone a Dário e anuncia: o piloto sumiu. Ou melhor, decolou. Diz, com ar divertido e sob risadas dos liderados, que vai providenciar uma rede e uma camiseta da Hutukara para cada uma das funcionárias da Secretaria de Educação: "Vocês estão na sua casa. Avião foi embora. Não estou brincando, não".
A sessão de reclamações e queixas prossegue até 17h40, para ser retomada na manhã seguinte. O calor é infernal. Quem não tem o privilégio, como a secretária-adjunta retida, de tomar banho e usar os vasos sanitários do posto de saúde, única construção de alvenaria em Toototobi, se vale do rio, onde também se lavam louças e peixes, e das muitas trilhas ao redor da maloca.
ELOQUÊNCIA Dormir na companhia de 600 ianomâmis pode ser revelador. Em quase todas as noites, o visitante será despertado, por volta das 4h30, por discursos numa das quatro línguas ianomâmi (yanomae, yanomamö, ninam e sanumá). Até palmas se fazem ouvir, das redes armadas sob a maloca onde acontecem as discussões. Marcos de Oliveira explica que são falas de líderes reconhecidos mais pela eloquência do que pelo mando, homens mais velhos que discorrem sobre o momento vivido pela comunidade e serviços que precisam ser realizados.
Toototobi, no entanto, é uma aldeia antiga. Quase ninguém mora ali -a casa coletiva ("xapono") mais próxima, Lasasi, no tradicional formato de anel, fica a uma hora e meia de caminhada. Aos poucos, o "napë" se dá conta de que os improvisos da madrugada tratam da própria assembleia. Não são discursos para parentes e membros da aldeia de origem, mas para o coletivo ianomâmi. Os índios fazem política dia e noite, sem descanso.
Isso fica mais claro na madrugada de sexta-feira. Ainda na quinta, depois do jantar, xamãs de algumas comunidades apresentam danças em que recebem os "xapiri", espíritos com que só eles se comunicam. No transe induzido por "yekuana" (pó de casca da árvore virola e outros ingredientes) soprado em suas narinas, negociam reforços de outras camadas do mundo para enfrentar os males que afl igem os ianomâmis nesta terra ("hutukara"), surgida com a primeira queda do céu.
A duração da dança de cada xamã, porém, foi limitada a 15 minutos e cronometrada pelos jovens diretores da associação Hutukara. Pajés célebres, como Levi, da região de Demini, se recusam a seguir a regra e deixam de se apresentar. Na madrugada, ouve-se a voz forte de Levi, em discurso de protesto. Líderes de outras comunidades veiculam boatos sobre Davi Kopenawa, que dorme longe da grande maloca, e as supostas vantagens - dinheiro, viagens, computadores - que reserva para seu grupo, entre eles o filho Dário.
FOFOCAS O falatório noturno chega ao conhecimento de Kopenawa antes que os "napë" encontrem alguém para traduzir seu conteúdo. Às 8h30 de sexta, o presidente da Hutukara suspende a pauta prevista -prestação de contas pelos diretores Dário, Mozarildo, Alfredo, Marinaldo e Rogel- e convoca uma extraordinária "pata thë ã", conversa de velho, ou conversa de h omem. Chama pelo nome representantes de comunidades Ajuricaba e Aracá para que venham à maloca repetir as "fofocas".
Antes de passar a palavra, contudo, Kopenawa critica os jovens da Hutukara por enquadrar a apresentação dos xamãs, homens habilitados a transitar entre as camadas do mundo que a tradição tupi consagrou com a denominação de "pajés". Kopenawa controla de perto setores nevrálgicos, como a distribuição de comida, mas deixa a burocracia da pauta em plenário a cargo de seus seguidores mais jovens, intervindo só quando o caldo político ameaça entornar. Ele próprio um xamã, explica que carrega Levi em suas viagens porque se sente mais forte na sua companhia. Nega que esteja explorando o colega e que tenha recebido dinheiro em viagens que fizeram para auxiliar na montagem de uma ópera sobre a Amazônia na Alemanha.
Antônio, de Ajuricaba, fala então de computadores que só vão para algumas aldeias, não a sua. Mas se declara feliz, "na frente de todos os napë", pela assembleia da Hutukara, que acompanha pela primeira vez. Morais, de Aracá, desconversa: afirma que nunca fez fofocas sobre xamãs. Ninguém pede desculpas, só "explicações".
Diretores da Hutukara explicitam os critérios para escolher as comunidades que receberão equipamentos multimídia do Ministério da Cultura, parte do projeto Pontos de Cultura, para registro de rituais e produção de novos conteúdos. Um cunhado de Kopenawa diz que é tudo culpa de um missionário, que anda falando mal dele. O próprio Levi se queixa só do tratamento dado aos xamãs, não tendo dúvidas sobre o caráter de Kopenawa. Às 10h, toda a roupa suja está lavada.
Seguem-se cinco apresentações xamânicas, desta vez com tempo livre. Duram até depois do meio-dia, uma média de 25 minutos por performance. A última, a cargo do concorrido Levi, se dedica a tratar as pernas da fotógrafa Claudia Andujar, 79, que sofreram quatro cirurgias desde s ua última visita aos amigos ianomâmis, 11 anos atrás.
CASAMENTO Sábado, em Toototobi, o dia foi dedicado à saúde, segundo ponto de atritos constantes entre indígenas e o Estado dos brancos (o terceiro é a proteção da terra indígena). O cirurgião Antônio Alves, titular da recém-criada Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) na cúpula do Ministério da Saúde, é recebido com pompa. Índias o cercam, pintam seu rosto, tiram a camisa, colocam-lhe nos braços adereços com longas penas vermelhas de arara, usados pelos xamãs e líderes. Davi Kopenawa diz que a nova aliança constitui "um casamento".
O tratamento cerimonioso contrasta com o que havia sido reservado a Gonçalo Teixeira dos Santos, administrador da Funai em Roraima. Sintonizado com políticos de peso no Estado, como o senador Romero Jucá (PMDB), Santos passou pela assembleia, mas deixou Toototobi antes da quinta-feira, para quando a pauta previa debates sobre proteção contra in vasores (garimpeiros, fazendeiros e pescadores). Vale dizer, cobranças ácidas sobre a inoperância da Funai no Estado. Foi, por isso, qualificado de covarde: "A Funai é como um pai que não defende o filho da onça", disparou Dário.
Fora a administração em Roraima, a Funai é bem-vista. Acaba de criar uma frente de proteção ambiental específica para ianomâmis e índios isolados da região. Comandado direto de Brasília, o grupo interventor foi entregue a José Carlos Meirelles, sertanista de reputação construída em 35 anos de dedicação para manter isolados os índios isolados do Acre.
Tática similar, mas de maior alcance, foi adotada pelo governo federal no terreno da saúde. Incapaz de fazer funcionar bem o atendimento a indígenas pela Fundação Nacional de Saúde (Funasa), criou a Sesai e a subordinou diretamente ao ministro da Saúde. Segundo Kopenawa, a seu pedido.
Alves entra com gosto no casamento ianomâmi. Veste de volta a própria camisa, mas não tira os adereços do braço. Ouve Kopenawa falar das "cagadas" da Funasa, cujos quadros a Sesai herdou, e pedir a exoneração do responsável pela saúde indígena em Roraima, Marcelo Lopes. Retribui dizendo, no discurso de despedida, que agora fala sério, na condição de homem casado, e ouve risadas. Mas Alves não se compromete com nada, no discurso final. E sofre novo assédio no caminho para a pista de pouso: não adianta brigar com "napë", mas, no manual da política ianomâmi, insistir e persistir são armas lícitas.
NOITE DE FESTA Dário ainda tem algo a aprender com o pai e com o que este assimilou dos "napë". O rapaz parece um dos mais nervosos com os questionamentos e a concorrência política. Seu estilo de intimidação dos adversários soa direto demais, sem a verve criativa que demonstrara quatro dias antes, ao separar representantes de aldeias com e sem escola para constranger a secretária-adjunta de Educação de Roraima. Referi ndo-se à incompetência da Funai para barrar os garimpeiros e fazendeiros, que, na sua visão, os adversários eleitorais não terão coragem de enfrentar, ele dispara: "Sem a Hutukara, vocês vão morrer. Vão morrer mesmo".
Ao pé da letra, ele provavelmente está certo: sem organização própria, os ianomâmis permanecerão mudos diante do Estado brasileiro, incapazes de apresentar suas demandas básicas: educação, saúde e segurança fundiária. O erro juvenil de Dário é acreditar que a associação desaparecerá sem a liderança atual.
Seu pai seguramente já se deu conta de que o surgimento de candidaturas avulsas sugere que o controle da democracia ianomâmi não é privilégio do grupo que a pôs em marcha como alternativa ao confronto que acaba em extermínio. Hoje, para os ianomâmis, política é a continuação da guerra por outros meios, entre aldeias ou perante os "napë".
Ao final da contagem das filas, Kopenawa derrota Gilberto por 210 vo tos a 114. Ele ainda é o cara, o "pata". Com escores mais apertados, Dário e os outros rapazes vão se reelegendo. A votação se encerra às 17h55, mas a fila para assinar o livro prossegue até depois das 21h. Kopenawa discursa em yanomae, sua língua, e ninguém providencia tradução para os "napë".
Começam os cantos e danças que atravessarão a noite. A ágora ianomâmi só se esvazia e retorna ao silêncio após as 4h30, já na madrugada de 8 de novembro. A meia dúzia de lâmpadas fluorescentes da maloca se apaga assim que o gerador é desligado. A mando de David Kopenawa, decerto. Segunda-feira é dia de branco.

Nota
O repórter especial Marcelo Leite viajou de Boa Vista (RR) a Toototobi (AM) a convite da Hutukara Associação Yanomami.

A festa da democracia, estilo ianomâmi, mobiliza cerca de 600 índios vindos a pé ou de avião, ao custo de R$ 232 mil pagos por financiadores como a Fundação Floresta Pl uvial, da Noruega

Davi Kopenawa controla de perto setores nevrálgicos da assembleia, como a distribuição de comida, mas deixa o plenário a cargo dos mais jovens, intervindo só quando o caldo ameaça entornar

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

ÍNDIO CONTEMPORÂNEO


(publicado in Revista Fusão Cultural – Piracicaba, SP, ed. 02, ano 01, abril de 2010, p.50)



Por Sunamita Oliveira

Índios - 510 anos de resistência!


Disse certa vez à um amigo que “aceito o fato de algumas pessoas não acreditarem que o homem foi à lua, todavia, considero criminoso aquele que nega o massacre dos povos indígenas”.Essa história é conhecida por boa parte dos brasileiros, a despeito dos malefícios impostos aos indígenas, do período da colonização até os dias de hoje.
Em todo país, a mídia tem divulgado, mesmo que de forma “tímida” e sucinta, as batalhas que tem sido travadas entre os povos indígenas e os fazendeiros invasores de suas terras, grileiros, posseiros, arrozeiros e políticos truculentos, no que concerne ao reconhecimento das terras, legitimamente indígenas desde a sua existência!
Todavia, em meio aos conflitos, se sobrepõe a força, a organização, a determinação e resistência de povos, alguns até considerados extintos ou até mesmo, confundidos com a massa da população não-índia de algumas localidades, tendo seus direitos renegados, como aconteceu com a Nação Xukuru do Ororubá, aqui em Pernambuco, e que conseguiu de forma surpreendente retomar sua terra e o direito de vivenciar plenamente sua cultura, como o Toré, antes proibido, considerado uma prática maléfica, e hoje servem de exemplo para diversas outras etnias, no quesito organização.
Uma grande conquista desta década para a questão indígena no Brasil, sem dúvida, foi a reelaboração da Lei 11.639/03, com novo texto para a Lei 11.645/08, que torna obrigatório também o ensino da história e cultura indígena em todas as escolas do país, além da cultura afro-brasileira e, “embora careça de maiores definições, objetiva a superação dessa lacuna na formação escolar. Contribuindo para o reconhecimento e a inclusão das diferenças étnicas dos povos indígenas, para se repensar em um novo desenho do Brasil em sua diversidade e da pluralidade culturais”, como dito pelo Prof. Edson Hely Silva, pesquisador da UFRPE.

Alguns julgam a lei desnecessária, ou de difícil aplicabilidade, no entanto, já temos noticias de diversas escolas que, não apenas implementaram em sua grade curricular esta disciplina, como estão proporcionando diversos momentos de interação e aprendizagem entre os alunos e os povos indígenas de seus estados, sem que essa presença dos indígenas nas escolas adquira caráter folclórico, o que já podemos contar como ponto positivo, embora, é claro, tenhamos consciência de que este é apenas um pequeno passo no longo percurso que precisa ser trilhado.
É inegável que a falta de informação conduz ao desrespeito e posterior discriminação para com os povos indígenas. O desconhecimento, é responsável por atitudes preconceituosas, como por exemplo, quando informei aos pais de meus alunos que iríamos visitar uma aldeia indígena ano passado. Alguns retrucaram que seria perigoso. Felizmente, a educação tem o poder de transformar vidas, em todos os segmentos e classes sociais. Realizamos a atividade, e nossos alunos esclareceram os pais acerca do que viram e ouviram.
Essas visões deturpadas sobre os índios vêm mudando nos últimos anos. E essa mudança ocorre em razão da visibilidade política conquistada pelos próprios índios, isso, desde a elaboração da Constituição de 1988, vigente no país, que contou com a participação de diversas lideranças indígenas do Brasil, e além de garantir o inicio da demarcação de suas terras, direito a saúde e educação diferenciadas, contribuiu para que o Brasil redescobrisse os nativos – índios.
Especialmente através da internet, e veículos de comunicação, “nossos índios” estão conhecendo objetos que facilitam algumas tarefas do dia-a-dia, como os transportes, além de vestuários da moda, alimentação variada, no entanto, cabe ressaltar que, sua identidade se sobrepõe aos atrativos da “civilização”. Como todos os seres humanos, eles tem direito a fazer suas escolhas, mantendo-se fiéis as suas raízes e história, construída ao longo de milhares de anos.